segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Coisinhas de papel


Eu queria poder chegar aqui e dizer que te amo. O fato é que você me ocupa, me preocupa e se não fosse assim eu continuaria sendo aquela garota amargurada e sem sorrisos que você conheceu. Mas não vim para dizer que te amo, às vezes eu prefiro deixar subtendido para não perder a graça. Ou talvez por medo de assumir de repente e ver que você não queria saber, ou quem sabe que você até queria saber, mas agora que sabe não se interessa mais.

Eu sinto sua falta, meu bem, sinto uma falta que parece que grita aqui dentro e entope meus ouvidos com uma surdez serena, para não ouvir o tic-tac do relógio me aperreando. Eu sei que você vai chegar esta noite – e espero que não esqueça o envelope que eu te pedi -, eu sei que você vai chegar sorrindo e me abraçando como fez tempos atrás. Um abraço de saudade recíproca, de vontade de ver, de tocar, um abraço tão real quanto a minha vontade de te sorrir. O abraço. Haha. Seus abraços são tão confortáveis. Outra noite mesmo brigados eu precisei dele para dormir em paz, fechei os olhos e te pedi, e você deu, e na manhã seguinte eu parecia renovada.

Sabe, algumas pessoas poderiam ser tão mais cautelosas, procuram tanto ao redor do mundo um alguém para ter perto e não vêem que o mais perto as querem tanto e não as têm.
Elas poderiam ser tão mais reais se fizessem aquilo que querem, aquilo que gostam e não precisassem de uma capa pesada para satisfazer o mundo. Na minha sala tem um rapaz que faz flores e corações de papel e quando vai embora, esquece tudo em cima da mesa. O perfume e sangue não perfumam a sala, mas quem olha vê o que quer ver e pensa o que quer pensar, e no dia seguinte ele volta da mesma maneira que no dia anterior, sem se importar muito com o que pensaram no outro dia. E faz de novo as flores e os corações, e esquece de novo tudo sobre a mesa, e quem vê pensa de novo até chegar uma hora que ninguém vais mais olhar e pensar, porque já estarão olhando para outras pessoas e pensando coisas sobre outras pessoas e é um vício que nenhuma reabilitação cura, o vício na vida alheia.

E todos os dias eu sento em qualquer lugar onde eu possa ver passar qualquer pessoa que eu nunca vi passar por mim e estudá-la o máximo que eu possa conseguir no tempo curto de sumir da minha atenção. Seja menino, menina, homem, mulher, garoto, garota. Todos os dias eu estudo as pessoas e descubro suas manias e seus vícios e seus pontos fracos e seus perfumes e a maneira de andar, de falar ao telefone, de espirrar, de tossir, de sorrir, de expressar uma dor, um sentimento, o frio, o calor e acredite, cada pessoa que eu estudo me faz perceber o exato e perfeito motivo de eu estar com você, o exato e perfeito motivo de eu não querer mais não ficar com você.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

A bonita



O amor em silêncio por quem jurou amor berrante
Vão amor berrante, nem ensurdece o anoitecer.
E a saudade, ai, ai a saudade
A saudade que sua meus olhos e soa o peito em uma cantoria estridente
E o sussurro que ecoa no ouvido dessa gente
Faz o medo adormecer e ficar tão pianinho que dá medo, como cantigas de ninar.
A saudade traiçoeira, sem vergonha, sem pudor
Diz aonde devo ir, o que eu quero, o que eu sou
E cala-me boca, cala-me olhos, cala-me lembranças do que restou.
Não me resta nada, não me peça nada que eu não dou
Não me diga nada, não pergunte nada de quem sou, se sou.
E essa amargura, hahaha, essa amargura não me incomoda não
Deixa a bonita, a maldita me perseguir para afastar a solidão.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

É começo de fevereiro, começo de ano, começo de aulas e momento para começar a traçar metas. “Este ano eu vou estudar”! Rá! Este filme eu já vi, mais de dez vezes.
Hoje eu estou meio madrugada e quando o sol ameaça aparecer eu me escondo dentro de mim mesma, estou a procura de um escuro só meu, a procura de uma vida só minha e um problema só meu. Estou meio vento frio, mas essa mudança de temperatura me alucina muito mais. Estou meio em saudade, mas essa vontade de rever simplesmente não acaba mais.
Preciso de um tempo. Preciso de um tempo para colocar os pontos nos is, para regar minhas plantas e tirar uma terceira via da minha identidade. Essa que eu guardei há tempos e de tão guardada envelheceu. Preciso de um tempo para fazer minha chave, e poder trocar meu chaveiro, colocar minhas meias de molho e comprar esmaltes novos. Pintar o cabelo, hidratar a pele, desligar o celular, ligar o som e dançar. Preciso de um tempo para mim sem muito o que me preocupar, sem querer terminar logo, sem ter tempo para pensar, ou pensar o quanto quiser, ler o quanto quiser e escrever o quanto me der vontade.
É início de ano, parece tão igual aos demais, mas o fato é que cada dia que passa se aproxima mais do fim do mundo. O dia em que a fúria da natureza não vai mais caber por trás das árvores e vai invadir as capitais. Nada de sol e mar, aguinha de coco com sorvete de morango, nada mais disso. Está chegando o dia em que a natureza vai inverter os pólos, em que o céu vai fazer parte desse chão e o mar vai fazer parte dessa sala. Maldito bicho homem, destruindo o que sempre foi tão frágil, a natureza só queria respirar.
Passamos o ano inteiro programando o Natal e o Reveillon. Eu disse O ano inteiro. Quando um termina – ou mal começa, já planejamos o próximo. Temos um ano de futuro incerto e nem sequer nos importamos, apenas planejamos o do ano seguinte e vamos perdendo cada minuto deste que está acontecendo. É sempre assim, estouramos cartões de créditos para comprar roupas novas e desfilar para pessoas que nem sequer vão reparar, e sapatos novos que apertam os pés, uma maquiagem que mal dá para sorrir e um cabelo tão bem arrumado que nos limita o vento, rouba a nossa liberdade.
Ainda assim eu amo o Natal. Amo as luzes brilhando nos prédios grandes aqui na frente e nas vitrines, escolas, hotéis. As luzes brilhando nos olhinhos das crianças quando ganham presentes, bonecas novas e acreditando que papai Noel existe. Vã ilusão, sempre descobrem que não é verdade, malditos cinco anos.
Acontece que de uns tempos para cá algumas coisas vêm mudando, alguns sorrisos perdendo o brilho e as pessoas vão cansando mais. Nós não mais queremos esperar pelos outros, pelo que eles têm a dizer, nem tampouco pelo que eles têm a sorrir. Nós não queremos mais dar abraços vazios e nem chamar para dançar uma música ruim. Nós não suportamos mais esses nojos e mentiras e falsidades que são criadas para manter tudo do jeitinho que a sociedade padrão quer, nós nem sequer nos suportamos, nós não queremos mais suportar ninguém. E se o Natal algum tempo atrás chegou a significar alguma coisa, o Natal de hoje não significa mais nada. A menos que tenha Substation que dure três dias, a menos que tenha Bike 100 anos na cidade, nem isso, pessoal, nem isso.
O Natal me traz lembranças boas, eu tinha 8 anos quando me embriaguei roubando um copo de champanhe largado sobre a mesa, minha mãe pouco sorria e meu pai não largava o copo de cerveja. Eu lembro também do calor que fazia quando todos iam para um lugar só, e todos queriam o mesmo pedaço do peru, que coxa que nada, eles queriam mesmo era o sobrecu.
Perdeu a essência, o cheiro de Natal, a vontade de Natal, perdeu tudo, restou apenas um dia nas férias e uma vontade incessante de voltar a ser criança e me embriagar novamente com aquele copo de champanhe.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Acontece que você resolveu ir embora e tudo o que lhe disseram foi algo como ´”Espero que saiba o que está fazendo. Quer sanduíche?”
Certo, e o “Que tal não? Por que você não fica mais um pouco para pensar melhor?”
Eis a falta que você faz.
Algumas pessoas precisam ir embora, não porque queiram fugir de algo, não porque queiram chamar a atenção de alguém, algumas só querem ir embora porque descobrem que suas metas estão em outro lugar, seus caminhos guiam suas vidas para outra direção. Ou querem ir embora simplesmente porque cansaram de ser segundo plano ou nem ser. Você que quer fugir, quer porque descobriu que ali já é pequeno demais para você e para os outros, ou que é apenas pequeno demais para você e para a outra. Sua palavra não é mais ouvida, sua presença não é mais sentida, sua falta foi perdida. Pode gritar, espernear, colocar a música bem alta e sair dançando pelada pelos corredores que ninguém vai lhe dar a mínima atenção. E você quer? Não.
Tem um momento na qual você também cansa, tem um momento que você também não quer mais ninguém, não dá mais atenção, não vê passar. E é aí que você precisa ir embora, afinal para que continuar em um lugar onde moram estranhos? E dormem em quartos vizinhos como se fossem quartos de hotel? Que saem sem dizer Bom dia, vão na cozinha, fazem o próprio café da manhã e voltam para o quarto e assistem sozinhos à televisão e saem sozinhos e moram sozinhos rodeados de gente.
Alguns costumam trocar o velho pelo novo, trocar certos alguéns por ninguéns por saber que alguéns não poderão nunca ir embora porque nunca terão para onde ir, então abusam do humanismo de alguéns. Esquecem que são feitos de células e que possuem uma certa capacidade de inteligência e o colocam cada vez mais para trás, até perder no passado, no escuro, na neblina que impede todo mundo de ver.
Mas certos novos sempre vão embora, as novidades não são novidades para sempre e o vento sempre leva para outros lugares e nesse caso, quem precisa mais? Quem ficou só e aprendeu a lidar com isso ou quem procura quem mandou embora por ter medo da solidão?

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Lispector contou um dia:

Já escondi um AMOR com medo de perdê-lo, já perdi um AMOR por escondê-lo.
Já segurei nas mãos de alguém por medo, já tive tanto medo, ao ponto de nem sentir minhas mãos.
Já expulsei pessoas que amava de minha vida, já me arrependi por isso.
Já passei noites chorando até pegar no sono, já fui dormir tão feliz, ao ponto de nem conseguir fechar os olhos.
Já acreditei em amores perfeitos, já descobri que eles não existem.
Já amei pessoas que me decepcionaram, já decepcionei pessoas que me amaram.
Já passei horas na frente do espelho tentando descobrir quem sou, já tive tanta certeza de mim, ao ponto de querer sumir.
Já menti e me arrependi depois, já falei a verdade e também me arrependi.
Já fingi não dar importância às pessoas que amava, para mais tarde chorar quieta em meu canto.
Já sorri chorando lágrimas de tristeza, já chorei de tanto rir.
Já acreditei em pessoas que não valiam a pena, já deixei de acreditar nas que realmente valiam.
Já tive crises de riso quando não podia.
Já quebrei pratos, copos e vasos, de raiva.
Já senti muita falta de alguém, mas nunca lhe disse.
Já gritei quando deveria calar, já calei quando deveria gritar.
Muitas vezes deixei de falar o que penso para agradar uns, outras vezes falei o que não pensava para magoar outros.
Já fingi ser o que não sou para agradar uns, já fingi ser o que não sou para desagradar outros.
Já contei piadas e mais piadas sem graça, apenas para ver um amigo feliz.
Já inventei histórias com final feliz para dar esperança a quem precisava.
Já sonhei demais, ao ponto de confundir com a realidade...
Já tive medo do escuro, hoje no escuro "me acho, me agacho, fico ali".
Já cai inúmeras vezes achando que não iria me reerguer, já me reergui inúmeras vezes achando que não cairia mais.
Já liguei para quem não queria apenas para não ligar para quem realmente queria.
Já corri atrás de um carro, por ele levar embora, quem eu amava.
Já chamei pela mamãe no meio da noite fugindo de um pesadelo.
Mas ela não apareceu e foi um pesadelo maior ainda.
Já chamei pessoas próximas de "amigo" e descobri que não eram...
Algumas pessoas nunca precisei chamar de nada e sempre foram e serão especiais para mim.
Não me dêem fórmulas certas, porque eu não espero acertar sempre.
Não me mostre o que esperam de mim, porque vou seguir meu coração!
Não me façam ser o que não sou, não me convidem a ser igual, porque sinceramente sou diferente!
Não sei amar pela metade, não sei viver de mentiras, não sei voar com os pés no chão.
Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma pra SEMPRE!
Gosto dos venenos mais lentos, das bebidas mais amargas, das drogas mais poderosas, das idéias mais insanas, dos pensamentos mais complexos, dos sentimentos mais fortes.
Tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos.
Você pode até me empurrar de um penhasco q eu vou dizer: - E daí? EU ADORO VOAR!

- Clarice Lispector

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Vim dizer para que vim.



Não existe mais dia de luz, nem sol que ilumine o quarto por inteiro e tampouco calor que aqueça a todos no inverno. Mal existe o frio do inferno, das colinas, dos montes, da lua safada sorrindo lá de cima entre uma estrela que brilha e outra estrela que morre... Estrelas.
A noite chega e você finalmente vai poder ser você mesmo por baixo do travesseiro ainda molhado pelas lágrimas que não secaram da noite anterior. A noite foi longa, como esta e as demais. Você sabe que o travesseiro não vai secar na noite seguinte e nem em nenhuma das noites que possam haver até que o sonho deixe de ser sonho.
Grande sonho, grande merda. Se eu comesse o seu fígado no almoço eu ficaria bêbada e teria uma má digestão, mas ainda assim te preferiria. Não há maneira de ficar mais perto, há? Os beijos estão tão distantes, tão mais distantes e as mãos nem se tocam mais, as mãos nem apertam mais, elas até mal escrevem.
Eu vim aqui para dizer que te amo, para dizer que talvez não seja dessa vez, mas na próxima vida eu vou aprender a transparecer meus sentimentos, na próxima vida eu vou saber dizer Eu te amo sem precisar dizer nada, eu vou saber.
Vou saber cantar a música certa para te fazer dormir mais rápido, e te fazer ficar sonolento sem ter dor de cabeça. Talvez na próxima vez eu aprenda a fazer chocolate quente, nem muito doce, nem muito amargo. E fritar ovo inteiro sem quebrar a gema, com queijo por cima, com beijo por cima, com queijo ralado por cima e com outro beijo para encaixar no pão.
Não vou mais lhe acordar no meio da noite para reclamar das minhas cólicas e/ou dos meus sonhos ruins.
Eu vim aqui para arriscar dizer que te amo com o meu português errado e o meu vocabulário tão curto. Para explicar que parece que não, mas que saiba que sim.
E para dizer que o mundo parece grande, mas é bem pequeno quando minha mão encontra seu rosto e meu queixo encontra o seu queixo, o beijo encontra o beijo. E que fica menor ainda quando a noite cai. Quando dá para ver da janela do meu quarto a lua safada entre uma estrela que brilha e uma estrela que morre. Estrelas.
Mentira, é tudo mentira. Mentira, eu vim aqui para contar uma história. A história de uma menina que finalmente conseguiu se encontrar em outrem. Parece fácil?
A história é sobre uma menina que nunca aprendeu a sambar e acreditava piamente nos desejos remotos que lhe soavam ao pé do ouvido. Já está aos 19 e nunca aprendeu a fazer bolo, nem tricô, nem jogar xadrez, nem fazer gol e nem sexo. Nem sexo.
Vim para contar a história da menina que amou tanto um menino que cansou de amar e quando cansou ela amou outro e desse ela não quis mais cansar.
Eu vim para contar uma história sem fim, sem pé, sem cabeça. Uma história sem jeito de história, sem rima para poema, apenas uma história qualquer, um conto, um texto, um verso. Um parto mal partido, um prato sem comida e mal comido, uma história qualquer, apenas uma história. Sem narrador nem personagens, sem cenário e nem figurantes. Uma peça sem texto, sem palco, sem público, sem enredo, ator, diretor, posição, melhor ângulo, pior ângulo, iluminação no centro do palco. Ação!
Eu vim aqui para te contar uma história.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Ele voltou!
Passou o Natal com a gente, não teve a mínima vontade de usar drogas e está tão gordinho. Abaixa a cabeça e aparece o papinho gordo dele no pescoço!
Um sorriso mais simpático, o mesmo esparro, sempre falando coisa demais e falando palavrão demais.
Ele voltou, hahaha! Mas por pouco tempo.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

A cura do mundo dos duendes.

Reabilitação.
Estava na hora mesmo, ele precisava mesmo se tratar. Toda noite aquele fungado que não deixava o menino nem sequer jogar dominó, cada vez mais magro, cada vez mais pálido, com olheiras, sem sono. Cada vez mais distante, cada vez mais estranho, cada vez mais louco.
Eu dizia, eu pedia “Pedrinho, Pedrinho, procura ajuda médica, não deixa isso tudo piorar”. E o Pedrinho teimoso, mas que menino teimoso! Dizia que tudo ia dar certo e não mudava nada do lugar. Dizia que ia ali comprar cigarros e ficávamos esperando para devolver o isqueiro, vã ilusão. O Pedrinho quando saía para comprar bobagem só voltava no dia seguinte, dizia que ali “dá um mijão” e voltava três horas depois. Eu tinha medo, eu tinha tanto medo. Sabia-se lá com quem ele estava, o que ele ia fazer, que horas ele voltava, se ele voltava.
Hey, hey... Estava na hora mesmo, meu bem.
“Eu tenho medo de voltar e meus amigos não me considerarem como agora.”
No dia que eu te deixar para trás, Pedrinho, o dia não mais amanhecerá. Dá para entender? Você nunca vai ficar sozinho, meu anjo, nunca. E eu não sou a única que confia em você, na sua capacidade. Não sou a única que vai te esperar dia após dia e te dar um abraço aconchegante, um abraço honesto, sincero. Eu não sou a única.
Lembra daquela quinta-feira? Que nós fomos todos ao show do GOG e você sumiu. “Chico, cadê o Pedrinho?” “Rapaz, está por ai. Ele falou que ia comprar cigarros.” A banquinha estava fechada, Pedrinho, onde porra você ia comprar cigarros se a banquinha estava fechada? Eu tinha medo de como você ia voltar, mas de alguma forma, de alguma maneira eu sabia que você ia voltar, e voltou. Com os olhos arregalados, a boca seca, dava para perceber na sua maneira de falar. Sentados na grama estávamos os quatro: você, Gabi, Chico e eu.
Você começou a desabafar e a gente disse o que estava entalado na garganta, a gente queria te convencer de que a ajuda médica era a melhor opção, mas que para isso você tinha que realmente querer senão não adiantaria.
A tristeza transformou-se em uma película e começou a revestir seus olhos, você levantou olhou para mim e disse “Eu voltei a fumar crack, Suku! Tem noção? Eu voltei a fumar crack.” Foi nessa hora que a película escorreu dos seus olhos e sangrou dentro de mim revestindo o meu coração.
De novo, Pedrinho? Você conseguiu não usar por tanto tempo e de repente me aparece com essa? Por que não me falou antes? Foi a hora que eu vi que você mais precisou de alguém, sabia? E eu deveria ter te dado um abraço nessa hora, deveria mesmo, mas eu tentei não deixar transparecer minha tristeza, eu queria ser forte no momento em que você se sentiu tão fraco sem saber que precisava ter muita coragem para assumir diante de nós.
Eu fiquei calada, a Gabi falou algumas coisas que não foram decorrentes das latinhas de cerveja, o Chico – como sempre – não disse nada, mas eu sei que você entendeu os olhos dele. Você entendeu, não entendeu?
Entendeu quando depois de tanto silêncio eu falei que você ia conseguir e que eu sabia que era difícil, mas não dá para jogar uma oportunidade como essa na lata do lixo?
Você entendeu?
Entendeu quando eu disse que você era privilegiado por ter os pais que tem e a opção de ir se curar? Entendeu?
Eu só queria te explicar que você tem oportunidades que milhões de noieiros gostariam de ter e você estava jogando fora. Jogando fora. E agora? VOCÊ tem noção?
Você dizia que era igual a todos eles e todos dizem isso, mas meu amor, na prática a teoria é outra. Você acha que se eles pudessem, eles estariam nas ruas jogados no chão depois de fumar N gramas desta porcaria? Acha que arriscariam suas vidas para assaltar uma bobagem qualquer para trocar por uma pedrinha? Uma pedrinha, Pedrinho? Pedrinha, Pedrinho. Um Pedrinha não custa dois reais não, meu amor. Quanto custa a sua vida? Ela tem algum valor? E se tem, é o mesmo que você dá à essa tal pedrinha, Pedrinho? Pedrinho, isso não vale nada. Essa porcaria vale a sua vida e você não queria enxergar, mesmo com os tais olhos arregalados que podia ver tudo exceto a realidade. Eu te falei isso, não falei? Eu te pedi, não pedi? Foram duas horas de conversa, desabafo, medo.
Desabafo por ver que seu coração não agüentava mais guarda aquilo por tanto tempo e medo de ser tudo da boca para fora, medo de ser tudo uma viagem, um efeito alucinógeno daquilo branco que estava no canto esquerdo do seu nariz. Eu não queria que fosse uma viagem errada do pó. Não tinha como negar, a ampola ainda estava em suas mãos quando você sentou e ficou com a cabeça baixa.
- Levanta a cabeça, Pedrinho.
- Não, agora não. Eu sou um homem! Eu posso esconder essas lágrimas?

E as suas lágrimas fizeram as minhas, que não sabiam por onde escorrer e escorreram pela mente, por o coração já está ocupado demais tentando romper a película que eu citei uns parágrafos acima.
No fim das contas, a gente ia para casa e você disse que ia comprar uma cerveja.
- Não, vem com a gente, Pedrinho.
- Não, se você estivesse sozinha eu te levava até em casa e depois ia comprar a minha cerveja, mas você está com o Chico e eu sei que você está segura, então podem ir.
- Mas eu sei que essa cerveja só vende muito longe daqui, vem com a gente.
No mesmo instante eu pensei “Este filme eu já vi.” Eu te pedi por favor para ir conosco, pedi por favor e você disse “Eu só vou comprar uma cerveja e só quero que você confie em mim.” Eu larguei você, disse que qualquer coisa me ligasse e fui embora. Eu ainda confiava em você.
No dia seguinte me disseram que você estava partindo para Recife, para a clínica de lá. Na mesma hora eu comecei a chorar e pensar em diversas coisas. Será que foi a conversa de ontem? Será que se nós não estivéssemos na hora em que ele chegou, ele iria se tratar? E o GOG? Ele falou de uma conversa que teve com o GOG, será que foi isso? E o pai dele? E a mãe dele? O que pensaram? O que disseram?
“Eu vou levá-lo antes que ele desista.” – Falou o seu pai.
Você tem a família que merece, Pedrinho. Você precisa de apoio e eles são o apoio que você procura.
Será que ele vai demorar? Será que ele vai passar o Natal por aqui? E se passar? Será que ele vai superar? Enlouquecer? Gritar?
“Pedrinho, eu fiquei sabendo, liguei para desejar boa viagem, para dizer que é para o seu bem e pedir para que se comporte. Não brigue com ninguém, eles farão o que for preciso. Cuide-se, cure-se e volte que eu vou morrer de saudades suas, vou morrer de saudades suas.”
Você respondeu com carinho, com alegria, eu te ouvi sorrir, Pedrinho! Eu ouvi quando você sorriu e era um sorriso sincero, eu ouvi. DESCULPA não ter te dado um abraço, eu já fiquei sabendo à noite e não dava mais tempo, você estava com sua família e eu não podia incomodar. Mas acredite, foi a coisa mais certa que você fez na sua vida, foi a sua maior atitude de coragem, de decisão, de força. E acredite que você já é um guerreiro, por ter combatido todos os pudores e todos os medos e ter ido com a intenção de voltar em paz. Eu quero a sua felicidade, Pedrinho, por favor, faça por onde.
E tudo bem se você não lembrar direito de mim mesmo estando aí distante e mesmo que quando voltar você não me veja mais como tão amiga, o que eu mais queria eu já consegui, que foi fazer parte de você, da sua vida, da sua decisão e se você ficar bem, fica tudo bem, tudo blue.

Trote de um traficante.


Deveria ser... Sei lá, 21:30, 22:00. Era sexta-feira, disso eu tenho certeza. Sexta-feira, dia 4 de dezembro. Eu estava pronta para tomar um belo banho e cair no mundo, como em todas as sextas-feiras. O telefone sobre a pia, tira a roupa, pendura a roupa suja para jogar no cesto de roupa suja do banheiro social porque se deixar no da Miss Mag alguma coisa não vai dar certo no futuro. Aí o telefone tocou, o número não estava salvo na agenda e ligeiramente pensei que fosse engano.
- Alô? Quem é?
- É a Jucy... Espera, quem é?
- É o Ronaldo! O Ronaldo do Tabuleiro!
Foi a partir deste “Ronaldo do Tabuleiro” que começou toda a confusão. Eu de frente para o espelho, perguntava se por acaso eu conhecia algum Ronaldo, mas apesar da memória sempre fraca, era uma certeza, não conhecia. Sei que ao desenvolver da conversa, esse tal deste Ronaldo começou a alterar a voz e acelerar a respiração, e pronto! O estranhou surtou. Perdeu o domínio sobre si, era um desvairado sem saber o que dizia a alguém que não conhecia pelo telefone que nem sequer era dele. Isso mesmo, além de tudo estava gastando os créditos de outrem para fazer uma – suposta – brincadeira sem graça e sem sentido. Ele pediu aos berros para eu parar de destruir a família dele e parar de ir comprar drogas diretamente em sua casa. Vê se pode? Pediu para eu parar de bater na porta dele todos os dias para comprar minhas drogas porque ele estava ficando com uma imagem ruim. Imagem ruim, quem já viu um traficante ter imagem ruim? Mas quem já viu, meu Deus? No Brasil é tão natural. -Eis a ironia.
Pois bem, o Dodói do juízo ressaltou que se eu voltasse lá outra vez ele iria meter bala. Com essas palavras! M e t e r b a l a. Como faz? Minha sexta-feira mal havia começado e já estava terminando com uma ameaça de morte safada por uma pessoa maluca e que estava em uma provável abstinência profunda.
- Meu querido, eu não compro drogas. Tem certeza absoluta que você ligou para a pessoa certa?
- Absoluta! É a Jucy, a cabelo de fogo! Eu passo de moto e te vejo, ontem mesmo te vi conversando com uma pivetona na frente de casa.

Jucy? Cabelo de fogo? Pivetona? Será que esse cara me conhece de verdade? Mas eu nem compro drogas a ele. Mas eu nem compro drogas! Será que só me viu em algum lugar? Mas e meu número? Como ele conseguiu? Pivetona? Que linguajar é este?


- Eu vou mandar uma carta para a sua mãe e seu pai para eles saberem quem você é.
- Meu pai? Se encontrá-lo me dá um toque, faz um bom tempo que não o vejo. – Pensei.

E a conversa ia ficando cada vez mais tensa, eu falava cada vez menos, ele ficava nervoso cada vez mais. Não perguntava nada, só reclamava, ameaçava, falava bosta. A ligação começou a cortar e eu pensei que fosse uma investigação da polícia. Para que? Eu nem sou uma criminosa. Vai ver queriam pegar esse maluco. -Mas que pena, é um problema dele.
Em seguida eu desliguei o telefone, liguei para a Miss Mag e ela não me deixou sair nesta noite, também pudera, não dá para confiar em uma mente insana como a dele.
Com o tempo eu fui juntando os fatos, os pedaços pequenos e juntando e juntando e juntando e cheguei a alguém. Repare só, cheguei a alguém que tem o mesmo nome, a mesma moto, trafica a mesma porcaria e só me viu uma vez. Ele quase se fodeu, não era ele, foi um trote filho da puta e o envolveu de graça. Já pensou? A polícia batendo na porta dele por causa de um trote e o cara ser preso por um desentendimento e eu ser morta por saber que os capangas dele não iam deixar barato? Sabe qual foi a sorte? Minha identidade sumiu nesta noite. Como eu faria um Boletim de Ocorrência? Como provaria que eu era eu sem a porra de uma identidade? É, se salvou, Ronaldo.
No dia seguinte o Chico ligou para o número:
- Alô? Quem é?
- É Alexandre... Quem é?
- Rapaz, ontem ligaram deste número, um homem chamado Ronaldo. Você conhece?
- Brother, nunca ouvi falar. Deste meu telefone?
- Exatamente, este Ronaldo ligou ameaçando a Jucy.
- Brother, conheço não, véi.

Véi? Ele disse Véi? Que linguajar é este?
Tsc... tsc... tsc... Resumindo a história. Enchi o saco deste cara, acendi um cigarro e fui jogar dominó, afinal, quem não deve, não teme.