Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real,
impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres
Com a morte a pôr umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens.
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer, e não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira.
Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso?
Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu ,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo.
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando.
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
0 mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num paço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente 0 seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena; Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates. Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei, e até cri, E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara, Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho, Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra ,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma conseqüência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira.
Vou á janela.
0 homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(0 Dono da Tabacaria chegou á porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da tabacaria sorriu.
-F.P.
quinta-feira, 4 de março de 2010
quarta-feira, 3 de março de 2010
Vai doer, mas vai passar. É só doer que faz lembrar das palavras todas do português e juntá-las em um lugar só, e vai fazendo arte, vai criando arte, pintando os 7 com vontade de explodir. Transforma sorriso em quadro, transforma euforia em escultura, mas destrói por achar que a tristeza é mais bonita. E a tristeza é mais bonita. A tristezza é mais bonita. Com dois “Z”, para isso parecer mais triste, mais bonito.
...nYn
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IV

Todos os dias eu fico olhando para você e me perguntando onde foi que eu errei, me perguntando se fui eu quem criou esse monstrinho que você se transformou ou se você sempre foi assim e eu que demorei a enxergar por estar acostumada a viver em meu quartinho escuro.
Sempre que te vejo sorrir eu me pergunto o porquê de você não ser mais como era no início, sempre me pergunto – esse sempre quer dizer t o d a s a s v e z e s .
Não sei onde esse seu “eu lírico” se escondeu esse tempo inteiro, não sabia nem que você tinha outro “eu” por baixo da manga. Ou talvez não estivesse tão por baixo assim – tudo culpa do maldito quartinho escuro.
Olhando bem para você, eu sei que deveria ter sido mais sutil, talvez um pouco mais adocicada, ou sei lá, mais fingida, mas preferi ser eu mesma e acabei lhe perdendo aos pouquinhos, sem que nenhum de nós dois pudesse perceber e agora eu vejo. Eu vejo o quanto você está longe e finge às vezes que está tudo bem, que não se afastou, que estará sempre aqui, que sente saudades e que ia ligar.
Agora eu vejo, haha, agora eu vejo. Você me tirou do quarto escuro e me jogou no mundo colorido que eu procurei por tantos anos, me fez despertar de um sonho sem futuro e passar a projetar outro sonho sem futuro ao seu lado, acreditando na máscara, no homem que eu pensei que fosse e na realidade não era, ou era, ou será. Na máscara. Ou talvez não fosse máscara, fosse a película escura que tapou meus olhos por tanto tempo, por tantos anos naquele tal quartinho escuro.
Agora posso dizer que se eu descobrisse alguma maneira de chegar de mansinho no seu afago, na sua mente e tomar conta dos seus sentimentos, e me apossar do seu amor e dizer que ele é meu e que ninguém vai tirar de mim, eu chegaria. Se houvesse um canto qualquer para eu te esconder e te alimentar com carícias, eu esconderia. Uma canção que eu pudesse cantar e te fizesse me amar, eu cantaria.
Contudo o que fui, o que fiz, ou que sou, o que faço, o que quero é trazer você do passado e lhe estacionar na minha sala de estar, em um presente profundo como o meu está sendo ultimamente. Quero parar de sentir falta do que você foi um dia, parar de sentir falta de velhos tempos e fazer novos tempos valerem muito mais a pena.
Quero cativar o seu sorriso, lhe convencer que sou eu e mais ninguém e que é você e mais ninguém, mais nada, mais nada, mais nada. Quero roubar a sua dor e colocá-la na minha caixa de sapatos e deixá-la lá até que vire poeira, deixá-la lá até que não vire mais nada, ou veneno para ratos, ou adubo para o jardim, ou qualquer coisa que não venha a atrapalhar meus planos, nossos planos.
Desde ontem que a minha manhã não tem cheiro de rosas. Incompleta, manhã incompleta. Sem beijo de despedida, sem sorrisos à distância, sem nada para unir o cansaço e a saudade.
Olhando bem para mim, estou sofrendo por dentro e procurando um escudo para apoiar e não cair. Olhando melhor ainda, estou chorando por dentro e passo o tempo inteiro com um sorriso no rosto ou uma seriedade qualquer para não dar liberdade à pena alheia. Olhando bem minuciosamente para mim, estou morrendo por dentro e fingindo que choro, fingindo que sofro para não pensar em desistir agora, para não te mostrar que por trás da armadura essa menina ainda é feita de carne, osso e coração.
‘Desistir’, a palavra que meu dicionário desconhece.
Saudade, a menina com armadura de ferro também sente saudade.
Amanhã de manhã eu prometo que serei eu mesma, sem nada a mais e sem nada a menos. Se você estiver aqui você vai me ver sorrindo, eu prometo. Café quentinho, sanduíche de queijo e presunto, um cigarro no ponto enquanto o ônibus não chega e um chiclete para quando ele chegar.
Se encontrar figuras indesejáveis, serei educada. Se encontrar pedras no caminho, eu vou passar por cima. Se fizer muito sol, eu vou pela sombra e se chover, eu passo correndo. Minha vida nunca foi das melhores para eu deixá-la para trás agora, já perdi tanto tempo que um segundo me parece uma eternidade. E se alguém tivesse a eternidade nas mãos, quem iria deixá-la partir?
Sempre que te vejo sorrir eu me pergunto o porquê de você não ser mais como era no início, sempre me pergunto – esse sempre quer dizer t o d a s a s v e z e s .
Não sei onde esse seu “eu lírico” se escondeu esse tempo inteiro, não sabia nem que você tinha outro “eu” por baixo da manga. Ou talvez não estivesse tão por baixo assim – tudo culpa do maldito quartinho escuro.
Olhando bem para você, eu sei que deveria ter sido mais sutil, talvez um pouco mais adocicada, ou sei lá, mais fingida, mas preferi ser eu mesma e acabei lhe perdendo aos pouquinhos, sem que nenhum de nós dois pudesse perceber e agora eu vejo. Eu vejo o quanto você está longe e finge às vezes que está tudo bem, que não se afastou, que estará sempre aqui, que sente saudades e que ia ligar.
Agora eu vejo, haha, agora eu vejo. Você me tirou do quarto escuro e me jogou no mundo colorido que eu procurei por tantos anos, me fez despertar de um sonho sem futuro e passar a projetar outro sonho sem futuro ao seu lado, acreditando na máscara, no homem que eu pensei que fosse e na realidade não era, ou era, ou será. Na máscara. Ou talvez não fosse máscara, fosse a película escura que tapou meus olhos por tanto tempo, por tantos anos naquele tal quartinho escuro.
Agora posso dizer que se eu descobrisse alguma maneira de chegar de mansinho no seu afago, na sua mente e tomar conta dos seus sentimentos, e me apossar do seu amor e dizer que ele é meu e que ninguém vai tirar de mim, eu chegaria. Se houvesse um canto qualquer para eu te esconder e te alimentar com carícias, eu esconderia. Uma canção que eu pudesse cantar e te fizesse me amar, eu cantaria.
Contudo o que fui, o que fiz, ou que sou, o que faço, o que quero é trazer você do passado e lhe estacionar na minha sala de estar, em um presente profundo como o meu está sendo ultimamente. Quero parar de sentir falta do que você foi um dia, parar de sentir falta de velhos tempos e fazer novos tempos valerem muito mais a pena.
Quero cativar o seu sorriso, lhe convencer que sou eu e mais ninguém e que é você e mais ninguém, mais nada, mais nada, mais nada. Quero roubar a sua dor e colocá-la na minha caixa de sapatos e deixá-la lá até que vire poeira, deixá-la lá até que não vire mais nada, ou veneno para ratos, ou adubo para o jardim, ou qualquer coisa que não venha a atrapalhar meus planos, nossos planos.
Desde ontem que a minha manhã não tem cheiro de rosas. Incompleta, manhã incompleta. Sem beijo de despedida, sem sorrisos à distância, sem nada para unir o cansaço e a saudade.
Olhando bem para mim, estou sofrendo por dentro e procurando um escudo para apoiar e não cair. Olhando melhor ainda, estou chorando por dentro e passo o tempo inteiro com um sorriso no rosto ou uma seriedade qualquer para não dar liberdade à pena alheia. Olhando bem minuciosamente para mim, estou morrendo por dentro e fingindo que choro, fingindo que sofro para não pensar em desistir agora, para não te mostrar que por trás da armadura essa menina ainda é feita de carne, osso e coração.
‘Desistir’, a palavra que meu dicionário desconhece.
Saudade, a menina com armadura de ferro também sente saudade.
Amanhã de manhã eu prometo que serei eu mesma, sem nada a mais e sem nada a menos. Se você estiver aqui você vai me ver sorrindo, eu prometo. Café quentinho, sanduíche de queijo e presunto, um cigarro no ponto enquanto o ônibus não chega e um chiclete para quando ele chegar.
Se encontrar figuras indesejáveis, serei educada. Se encontrar pedras no caminho, eu vou passar por cima. Se fizer muito sol, eu vou pela sombra e se chover, eu passo correndo. Minha vida nunca foi das melhores para eu deixá-la para trás agora, já perdi tanto tempo que um segundo me parece uma eternidade. E se alguém tivesse a eternidade nas mãos, quem iria deixá-la partir?
quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Quem mandou você querer?
A tarde meio vazia e o cachorro que eu tanto queria eu descobri que era só brincadeira. Não contei? Ofereceram um cachorro para o Chico e ele negou, perguntou se eu queria e eu fiz planos em cima dos latidos dele. A vaca da mulher disse que era só uma brincadeira. Não foi culpa dele, não foi culpa dela, nem foi culpa minha, não foi culpa de ninguém, nem do cachorro, nem do meu apartamento que é muito pequeno para criar um, nem da minha irmã que tem alergia a pêlos, nem da minha mãe que odeia latidos, nem minha, ou talvez a culpa seja toda minha, afinal quem mandou querer?
"Cuidado com o que você deseja, pode tornar-se realidade."
Hahaha, quem mandou você querer? Quero uma estante recheada com livros, uma prateleira de filmes, um amor longo e verdadeiro, uma bateria que não acabe, notas boas na faculdade, que todos os meus lados sejam fotogênicos, coxinha com catupiry, comer e não engordar. Parece mais fácil agora. Quero um carro, não! Primeiro uma habilitação, depois uma moto e aí sim um carro equipado, roda cromada, não sei o que lá hidráulico, não sei o que lá automático, ar-condicionado, tanque cheio. Cigarro em cima do painel, um som que funcionem meus CDs de mp3, ahhaha, eu quero também uma constituição só minha e quero o mundo a siga e se não der certo, deixa que eu mudo tudinho, mas eu QUERO que dê certo. Hahaha. Quero que minha cidade cheire a rosas, lixeiros em todas as esquinas, um freezer cheio de sorvete e um guarda-roupa cheio de roupas novas, sapatos novos e as minhas preferidas mesmo que velhinhas. Cansou?
A vida seria nojenta se fosse exatamente como a gente quer, mas também não precisava ser tão arisca, caralho. O fato é que se acaba por reclamar tanto que esquece que o mundo está um caos, um verdadeiro caos. Um furacão chegou caladinho e foi bagunçando embaixo da cama e agora o mesmo furacão destruiu o Haiti. É a mesma força. A força que derramou minha xícara de café em cima da toalha de mesa novinha e limpinha hoje de manhã, é a mesma que derruba montanhas do outro lado do mundo, é o egoísmo. É fazer tudo em pró de si mesmo, é querer tudo para si mesmo e esquecer que o mundo está cheio de gente querendo um pouquinho também. Uma hora ia ter que desmoronar, uma hora ia ter que dilacerar os corações, a paz e colocar tudo abaixo.
Colocou.
"Cuidado com o que você deseja, pode tornar-se realidade."
Hahaha, quem mandou você querer? Quero uma estante recheada com livros, uma prateleira de filmes, um amor longo e verdadeiro, uma bateria que não acabe, notas boas na faculdade, que todos os meus lados sejam fotogênicos, coxinha com catupiry, comer e não engordar. Parece mais fácil agora. Quero um carro, não! Primeiro uma habilitação, depois uma moto e aí sim um carro equipado, roda cromada, não sei o que lá hidráulico, não sei o que lá automático, ar-condicionado, tanque cheio. Cigarro em cima do painel, um som que funcionem meus CDs de mp3, ahhaha, eu quero também uma constituição só minha e quero o mundo a siga e se não der certo, deixa que eu mudo tudinho, mas eu QUERO que dê certo. Hahaha. Quero que minha cidade cheire a rosas, lixeiros em todas as esquinas, um freezer cheio de sorvete e um guarda-roupa cheio de roupas novas, sapatos novos e as minhas preferidas mesmo que velhinhas. Cansou?
A vida seria nojenta se fosse exatamente como a gente quer, mas também não precisava ser tão arisca, caralho. O fato é que se acaba por reclamar tanto que esquece que o mundo está um caos, um verdadeiro caos. Um furacão chegou caladinho e foi bagunçando embaixo da cama e agora o mesmo furacão destruiu o Haiti. É a mesma força. A força que derramou minha xícara de café em cima da toalha de mesa novinha e limpinha hoje de manhã, é a mesma que derruba montanhas do outro lado do mundo, é o egoísmo. É fazer tudo em pró de si mesmo, é querer tudo para si mesmo e esquecer que o mundo está cheio de gente querendo um pouquinho também. Uma hora ia ter que desmoronar, uma hora ia ter que dilacerar os corações, a paz e colocar tudo abaixo.
Colocou.
Coisinhas de papel

Eu queria poder chegar aqui e dizer que te amo. O fato é que você me ocupa, me preocupa e se não fosse assim eu continuaria sendo aquela garota amargurada e sem sorrisos que você conheceu. Mas não vim para dizer que te amo, às vezes eu prefiro deixar subtendido para não perder a graça. Ou talvez por medo de assumir de repente e ver que você não queria saber, ou quem sabe que você até queria saber, mas agora que sabe não se interessa mais.
Eu sinto sua falta, meu bem, sinto uma falta que parece que grita aqui dentro e entope meus ouvidos com uma surdez serena, para não ouvir o tic-tac do relógio me aperreando. Eu sei que você vai chegar esta noite – e espero que não esqueça o envelope que eu te pedi -, eu sei que você vai chegar sorrindo e me abraçando como fez tempos atrás. Um abraço de saudade recíproca, de vontade de ver, de tocar, um abraço tão real quanto a minha vontade de te sorrir. O abraço. Haha. Seus abraços são tão confortáveis. Outra noite mesmo brigados eu precisei dele para dormir em paz, fechei os olhos e te pedi, e você deu, e na manhã seguinte eu parecia renovada.
E todos os dias eu sento em qualquer lugar onde eu possa ver passar qualquer pessoa que eu nunca vi passar por mim e estudá-la o máximo que eu possa conseguir no tempo curto de sumir da minha atenção. Seja menino, menina, homem, mulher, garoto, garota. Todos os dias eu estudo as pessoas e descubro suas manias e seus vícios e seus pontos fracos e seus perfumes e a maneira de andar, de falar ao telefone, de espirrar, de tossir, de sorrir, de expressar uma dor, um sentimento, o frio, o calor e acredite, cada pessoa que eu estudo me faz perceber o exato e perfeito motivo de eu estar com você, o exato e perfeito motivo de eu não querer mais não ficar com você.
Eu sinto sua falta, meu bem, sinto uma falta que parece que grita aqui dentro e entope meus ouvidos com uma surdez serena, para não ouvir o tic-tac do relógio me aperreando. Eu sei que você vai chegar esta noite – e espero que não esqueça o envelope que eu te pedi -, eu sei que você vai chegar sorrindo e me abraçando como fez tempos atrás. Um abraço de saudade recíproca, de vontade de ver, de tocar, um abraço tão real quanto a minha vontade de te sorrir. O abraço. Haha. Seus abraços são tão confortáveis. Outra noite mesmo brigados eu precisei dele para dormir em paz, fechei os olhos e te pedi, e você deu, e na manhã seguinte eu parecia renovada.
Sabe, algumas pessoas poderiam ser tão mais cautelosas, procuram tanto ao redor do mundo um alguém para ter perto e não vêem que o mais perto as querem tanto e não as têm.
Elas poderiam ser tão mais reais se fizessem aquilo que querem, aquilo que gostam e não precisassem de uma capa pesada para satisfazer o mundo. Na minha sala tem um rapaz que faz flores e corações de papel e quando vai embora, esquece tudo em cima da mesa. O perfume e sangue não perfumam a sala, mas quem olha vê o que quer ver e pensa o que quer pensar, e no dia seguinte ele volta da mesma maneira que no dia anterior, sem se importar muito com o que pensaram no outro dia. E faz de novo as flores e os corações, e esquece de novo tudo sobre a mesa, e quem vê pensa de novo até chegar uma hora que ninguém vais mais olhar e pensar, porque já estarão olhando para outras pessoas e pensando coisas sobre outras pessoas e é um vício que nenhuma reabilitação cura, o vício na vida alheia.
Elas poderiam ser tão mais reais se fizessem aquilo que querem, aquilo que gostam e não precisassem de uma capa pesada para satisfazer o mundo. Na minha sala tem um rapaz que faz flores e corações de papel e quando vai embora, esquece tudo em cima da mesa. O perfume e sangue não perfumam a sala, mas quem olha vê o que quer ver e pensa o que quer pensar, e no dia seguinte ele volta da mesma maneira que no dia anterior, sem se importar muito com o que pensaram no outro dia. E faz de novo as flores e os corações, e esquece de novo tudo sobre a mesa, e quem vê pensa de novo até chegar uma hora que ninguém vais mais olhar e pensar, porque já estarão olhando para outras pessoas e pensando coisas sobre outras pessoas e é um vício que nenhuma reabilitação cura, o vício na vida alheia.
E todos os dias eu sento em qualquer lugar onde eu possa ver passar qualquer pessoa que eu nunca vi passar por mim e estudá-la o máximo que eu possa conseguir no tempo curto de sumir da minha atenção. Seja menino, menina, homem, mulher, garoto, garota. Todos os dias eu estudo as pessoas e descubro suas manias e seus vícios e seus pontos fracos e seus perfumes e a maneira de andar, de falar ao telefone, de espirrar, de tossir, de sorrir, de expressar uma dor, um sentimento, o frio, o calor e acredite, cada pessoa que eu estudo me faz perceber o exato e perfeito motivo de eu estar com você, o exato e perfeito motivo de eu não querer mais não ficar com você.
quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010
A bonita

O amor em silêncio por quem jurou amor berrante
Vão amor berrante, nem ensurdece o anoitecer.
E a saudade, ai, ai a saudade
A saudade que sua meus olhos e soa o peito em uma cantoria estridente
E o sussurro que ecoa no ouvido dessa gente
Faz o medo adormecer e ficar tão pianinho que dá medo, como cantigas de ninar.
A saudade traiçoeira, sem vergonha, sem pudor
Diz aonde devo ir, o que eu quero, o que eu sou
E cala-me boca, cala-me olhos, cala-me lembranças do que restou.
Não me resta nada, não me peça nada que eu não dou
Vão amor berrante, nem ensurdece o anoitecer.
E a saudade, ai, ai a saudade
A saudade que sua meus olhos e soa o peito em uma cantoria estridente
E o sussurro que ecoa no ouvido dessa gente
Faz o medo adormecer e ficar tão pianinho que dá medo, como cantigas de ninar.
A saudade traiçoeira, sem vergonha, sem pudor
Diz aonde devo ir, o que eu quero, o que eu sou
E cala-me boca, cala-me olhos, cala-me lembranças do que restou.
Não me resta nada, não me peça nada que eu não dou
Não me diga nada, não pergunte nada de quem sou, se sou.
E essa amargura, hahaha, essa amargura não me incomoda não
Deixa a bonita, a maldita me perseguir para afastar a solidão.
E essa amargura, hahaha, essa amargura não me incomoda não
Deixa a bonita, a maldita me perseguir para afastar a solidão.
sábado, 6 de fevereiro de 2010
É começo de fevereiro, começo de ano, começo de aulas e momento para começar a traçar metas. “Este ano eu vou estudar”! Rá! Este filme eu já vi, mais de dez vezes.
Hoje eu estou meio madrugada e quando o sol ameaça aparecer eu me escondo dentro de mim mesma, estou a procura de um escuro só meu, a procura de uma vida só minha e um problema só meu. Estou meio vento frio, mas essa mudança de temperatura me alucina muito mais. Estou meio em saudade, mas essa vontade de rever simplesmente não acaba mais.
Preciso de um tempo. Preciso de um tempo para colocar os pontos nos is, para regar minhas plantas e tirar uma terceira via da minha identidade. Essa que eu guardei há tempos e de tão guardada envelheceu. Preciso de um tempo para fazer minha chave, e poder trocar meu chaveiro, colocar minhas meias de molho e comprar esmaltes novos. Pintar o cabelo, hidratar a pele, desligar o celular, ligar o som e dançar. Preciso de um tempo para mim sem muito o que me preocupar, sem querer terminar logo, sem ter tempo para pensar, ou pensar o quanto quiser, ler o quanto quiser e escrever o quanto me der vontade.
É início de ano, parece tão igual aos demais, mas o fato é que cada dia que passa se aproxima mais do fim do mundo. O dia em que a fúria da natureza não vai mais caber por trás das árvores e vai invadir as capitais. Nada de sol e mar, aguinha de coco com sorvete de morango, nada mais disso. Está chegando o dia em que a natureza vai inverter os pólos, em que o céu vai fazer parte desse chão e o mar vai fazer parte dessa sala. Maldito bicho homem, destruindo o que sempre foi tão frágil, a natureza só queria respirar.
Hoje eu estou meio madrugada e quando o sol ameaça aparecer eu me escondo dentro de mim mesma, estou a procura de um escuro só meu, a procura de uma vida só minha e um problema só meu. Estou meio vento frio, mas essa mudança de temperatura me alucina muito mais. Estou meio em saudade, mas essa vontade de rever simplesmente não acaba mais.
Preciso de um tempo. Preciso de um tempo para colocar os pontos nos is, para regar minhas plantas e tirar uma terceira via da minha identidade. Essa que eu guardei há tempos e de tão guardada envelheceu. Preciso de um tempo para fazer minha chave, e poder trocar meu chaveiro, colocar minhas meias de molho e comprar esmaltes novos. Pintar o cabelo, hidratar a pele, desligar o celular, ligar o som e dançar. Preciso de um tempo para mim sem muito o que me preocupar, sem querer terminar logo, sem ter tempo para pensar, ou pensar o quanto quiser, ler o quanto quiser e escrever o quanto me der vontade.
É início de ano, parece tão igual aos demais, mas o fato é que cada dia que passa se aproxima mais do fim do mundo. O dia em que a fúria da natureza não vai mais caber por trás das árvores e vai invadir as capitais. Nada de sol e mar, aguinha de coco com sorvete de morango, nada mais disso. Está chegando o dia em que a natureza vai inverter os pólos, em que o céu vai fazer parte desse chão e o mar vai fazer parte dessa sala. Maldito bicho homem, destruindo o que sempre foi tão frágil, a natureza só queria respirar.
Passamos o ano inteiro programando o Natal e o Reveillon. Eu disse O ano inteiro. Quando um termina – ou mal começa, já planejamos o próximo. Temos um ano de futuro incerto e nem sequer nos importamos, apenas planejamos o do ano seguinte e vamos perdendo cada minuto deste que está acontecendo. É sempre assim, estouramos cartões de créditos para comprar roupas novas e desfilar para pessoas que nem sequer vão reparar, e sapatos novos que apertam os pés, uma maquiagem que mal dá para sorrir e um cabelo tão bem arrumado que nos limita o vento, rouba a nossa liberdade.
Ainda assim eu amo o Natal. Amo as luzes brilhando nos prédios grandes aqui na frente e nas vitrines, escolas, hotéis. As luzes brilhando nos olhinhos das crianças quando ganham presentes, bonecas novas e acreditando que papai Noel existe. Vã ilusão, sempre descobrem que não é verdade, malditos cinco anos.
Acontece que de uns tempos para cá algumas coisas vêm mudando, alguns sorrisos perdendo o brilho e as pessoas vão cansando mais. Nós não mais queremos esperar pelos outros, pelo que eles têm a dizer, nem tampouco pelo que eles têm a sorrir. Nós não queremos mais dar abraços vazios e nem chamar para dançar uma música ruim. Nós não suportamos mais esses nojos e mentiras e falsidades que são criadas para manter tudo do jeitinho que a sociedade padrão quer, nós nem sequer nos suportamos, nós não queremos mais suportar ninguém. E se o Natal algum tempo atrás chegou a significar alguma coisa, o Natal de hoje não significa mais nada. A menos que tenha Substation que dure três dias, a menos que tenha Bike 100 anos na cidade, nem isso, pessoal, nem isso.
O Natal me traz lembranças boas, eu tinha 8 anos quando me embriaguei roubando um copo de champanhe largado sobre a mesa, minha mãe pouco sorria e meu pai não largava o copo de cerveja. Eu lembro também do calor que fazia quando todos iam para um lugar só, e todos queriam o mesmo pedaço do peru, que coxa que nada, eles queriam mesmo era o sobrecu.
Perdeu a essência, o cheiro de Natal, a vontade de Natal, perdeu tudo, restou apenas um dia nas férias e uma vontade incessante de voltar a ser criança e me embriagar novamente com aquele copo de champanhe.
Ainda assim eu amo o Natal. Amo as luzes brilhando nos prédios grandes aqui na frente e nas vitrines, escolas, hotéis. As luzes brilhando nos olhinhos das crianças quando ganham presentes, bonecas novas e acreditando que papai Noel existe. Vã ilusão, sempre descobrem que não é verdade, malditos cinco anos.
Acontece que de uns tempos para cá algumas coisas vêm mudando, alguns sorrisos perdendo o brilho e as pessoas vão cansando mais. Nós não mais queremos esperar pelos outros, pelo que eles têm a dizer, nem tampouco pelo que eles têm a sorrir. Nós não queremos mais dar abraços vazios e nem chamar para dançar uma música ruim. Nós não suportamos mais esses nojos e mentiras e falsidades que são criadas para manter tudo do jeitinho que a sociedade padrão quer, nós nem sequer nos suportamos, nós não queremos mais suportar ninguém. E se o Natal algum tempo atrás chegou a significar alguma coisa, o Natal de hoje não significa mais nada. A menos que tenha Substation que dure três dias, a menos que tenha Bike 100 anos na cidade, nem isso, pessoal, nem isso.
O Natal me traz lembranças boas, eu tinha 8 anos quando me embriaguei roubando um copo de champanhe largado sobre a mesa, minha mãe pouco sorria e meu pai não largava o copo de cerveja. Eu lembro também do calor que fazia quando todos iam para um lugar só, e todos queriam o mesmo pedaço do peru, que coxa que nada, eles queriam mesmo era o sobrecu.
Perdeu a essência, o cheiro de Natal, a vontade de Natal, perdeu tudo, restou apenas um dia nas férias e uma vontade incessante de voltar a ser criança e me embriagar novamente com aquele copo de champanhe.
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